O Sol Nasce para Todos: Património Português em Toronto

[The Sun Rises for Everyone: Portuguese Heritage in Toronto]

Escrito por  Tyson Brown

Em 1501, Gaspar Corte-Real descobriu o que deveria ser a costa da Terra Nova, o que lhe valeu o título de primeira pessoa de ascendência portuguesa a ver o Canadá. No entanto, só em meados do séc. XX é que começaria uma forte migração portuguesa para este país e para Toronto. O estabelecimento da comunidade portuguesa coincidiu com o forte crescimento de Toronto e com a transformação do seu perfil cultural e político, durante o período após a II Guerra Mundial.

Portugueses pioneiros em Toronto, 1957. Coleção MHSO, POR-4905-1

Até meados do séc. XX, a política de imigração canadiana era seletiva em função da raça e da nacionalidade dos potenciais imigrantes. Portugal não era um país preferencial e, assim, antes da Segunda Guerra Mundial, havia muito poucas pessoas de ascendência portuguesa na cidade. Os registos da sua experiência são limitados. O único representante oficial de Portugal em Toronto era um membro honorário do consulado português na cidade de Nova Iorque. Os outros portugueses ficaram ou passaram pela cidade sem deixar grande registo documental.

Tudo isto mudou na década de 1950, quando uma série de fatores condicionantes originou um enorme fluxo migratório português para Toronto. Em 1955, o departamento federal da Imigração e Cidadania Canadiana trouxe cerca de 500 emigrantes das Ilhas dos Açores para o Canadá, para ajudar a suprir a falta de mão de obra no setor mineiro, ferroviário e agrícola na região norte de Ontário. Quando o contrato de trabalho cessou, muitos destes portugueses dirigiram-se para cidades maiores, e Toronto tornou-se um destino preferencial. Aqui, encontrariam alojamento temporário e trabalho sazonal e estabeleceriam as bases da comunidade portuguesa na cidade.

Por volta desta altura, fatores económicos e políticos em Portugal levaram muitos a ponderar emigrar para outro país, de forma a começar uma nova vida. A economia agrícola de Portugal estagnara, e havia uma pressão cada vez maior para se procurar trabalho e estabilidade económica fora do país. A emigração era particularmente apelativa para os homens, os quais dispunham de uma mobilidade social limitada e escassas oportunidades de trabalho, tinham de cumprir o serviço militar obrigatório e eram sujeitos a vários tipos de opressão civil.

Nos anos 50, os portugueses, tais como quaisquer outros imigrantes na cidade, arranjaram alojamento nas zonas mais velhas da cidade a um preço mais acessível. Instalaram-se em zonas da cidade com centros religiosos em consonância com a sua fé. As zonas de Kensington Market e Alexandra Park, em particular, tornaram-se bairros com uma forte presença portuguesa. A St. Mary’s Roman Catholic Church, no cruzamento das ruas Bathurst e Adelaide, construída em 1899 para servir os paroquianos irlandeses, tornou-se um centro de fé português e originou a mudança do nome do local para Portugal Square. Outros imigrantes portugueses frequentavam a Our Lady of Mt. Carmel Roman Catholic Church, na McCaul Street, a St. Agnes Roman Catholic Church, no cruzamento das ruas Grace e Dundas, e a St. Helen’s Roman Catholic Church, situada na Dundas Street, à altura da Lansdowne Avenue. Eram já todas igrejas bem estabelecidas quando os portugueses chegaram, e tornar-se-iam instituições vitais e polivalentes no centro dos bairros portugueses.

Harbord Street e Brunswick Avenue, Toronto, 1977. Coleção MHSO/POR-200819

Um exemplo claro do impacto das comunidades portuguesas é visível num dos bairros mais famosos e históricos de Toronto, Kensington Market. A comunidade judaica mais antiga de Toronto estabelecera-se antes nesta zona e instituíra a tradição de mercados ao ar livre e animação nas ruas. Dada a proximidade das igrejas católicas e do mercado, os imigrantes portugueses costumavam circular nesta zona e, em algumas décadas, deixaram o seu cunho nesta parte única da paisagem urbana de Toronto. As casas na Augusta Avenue, na Baldwin Street e na Nassau Street foram remodeladas com jardins na parte da frente e fachadas de tijolo pintadas de fresco. O restaurante Sousa, a Portuguese Bookstore (Livraria Portuguesa) e uma associação importante conhecida como First Portuguese Canadian Club (Primeiro Clube Luso-Canadiano) estabeleceram-se no bairro, durante estes anos. Para Kensington Market, a tradição de receber novos imigrantes continuaria após a influência judaica e portuguesa no bairro, sendo que a cultura da Ásia, das Caraíbas e do Médio Oriente continuariam a fazer de Kensington um centro de diversidade e um microcosmos da multiculturalidade de Toronto.

A partir das igrejas locais e de Kensington Market, a comunidade portuguesa foi crescendo com a vinda de muitos imigrantes para Toronto através de vistos de patrocínio familiar. A comunidade expandiu-se para a zona da Bloor e da Dufferin, mais para oeste para a Lansdowne Avenue e acabaria por ir também para os subúrbios, no boom de construção dos anos 70 e 80.

Nesse processo, os portugueses em Toronto deram contributos fundamentais para as infraestruturas e a cultura da cidade. A imigração para Toronto coincidiu com o boom de desenvolvimento após a II Guerra Mundial, o que constituiu uma resposta a quase 15 anos de procura deprimida devido à guerra e à Depressão, e também com o crescimento populacional do pós-guerra. Os homens portugueses arranjaram trabalho na construção de infraestruturas e de muitos edifícios novos que redefiniriam em breve a paisagem de Toronto. Esta fase transformativa da história de Toronto esteve, na verdade, intimamente ligada à diversidade cada vez mais presente na cidade. Enquanto os homens portugueses desempenhavam um papel importante na construção, as portuguesas eram relevantes na manutenção dos edifícios.

A construção de prédios altos no centro da cidade, nas décadas após a II Guerra Mundial, contribuiu para o estatuto de Toronto como um centro económico, internacional e moderno do Canadá. A comunidade portuguesa fez parte desse processo. A sua luta pela segurança laboral e por acesso a cuidados de saúde, e a contestação pelas longas horas de trabalho e pelos salários baixos originariam mudanças que ditaram o perfil atual da cidade.

Primeira edição do Correio Português, 6 de julho, 1963. Coleção MHSO

A comunidade portuguesa também desempenhou um papel igualmente importante na implementação de novas políticas para homenagear o “multiculturalismo”, após 1971. O First Portuguese Canadian Club, os professores portugueses e os líderes da comunidade portuguesa estiveram profundamente envolvidos no esforço do governo federal e da Câmara de Toronto para resolver problemas de igualdade e para reconhecer e apoiar a diversidade cultural. O Portuguese Canadian Historical Museum (Museu Histórico Luso-Canadiano) é um exemplo claro do otimismo e da consciência cultural crescente que deu forma à cidade, neste importante período do seu passado. Este museu demonstra o notável compromisso e o investimento de tempo, energia e recursos escassos para preservar, documentar e homenagear a grande diversidade de Toronto.

 Fontes:

Grace Anderson and J. Davis, ‘Portuguese Immigrant Women in Canada’, from David Higgs, Portuguese Migration in a Global Perspective, (Multicultural History Society of Ontario, 1990), pg 136-44.
Domingos Marques and Joao, ‘Portuguese Immigrant in Toronto’, Polyphony: Toronto’s People, Vol. 6, No. 1, (Spring/Summer, 1984), pg. 44-49.
Fernando Nunes, ‘Portuguese Canadian Women, ‘Problems and Prospects’, Polyphony: Women and Ethnicity, Vol. 8, No. 1-2, (Multicultural History Society of Ontario, 1986), pg. 61-66.
Alan De Sousa, ‘The First Portuguese Canadian Club’, Polyphony: Sports and Ethnicity, Vol. 7, No. 1 (Spring/Summer, 1985), pg.65-66.
Kensington: A Need Study, Toronto Planning Board, 1976, MHSO Collection
Olivia Ward, The Portuguese, Toronto Star, Nov 17, 1985.

Heritage Toronto is pleased to acknowledge the support of the Government of Ontario, through the Ministry of Tourism and Culture, for this project.

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