O Preço da Prosperidade: Trabalhadores Portugueses em Toronto

[The Price of Prosperity: Portuguese Labourers in Toronto]

Escrito por Daniela Costa

Após a Segunda Guerra Mundial, Toronto começou a expandir-se a um ritmo acelerado. Construíram-se novas estruturas governamentais e empresariais, em prol do avanço da cidade rumo ao estatuto de uma metrópole moderna. A própria construção destas estruturas e a posterior manutenção foram realizadas por trabalhadores, muitos deles imigrantes recém-chegados. Um número significativo desses trabalhadores eram portugueses, que trabalhavam na construção civil, e portuguesas, que trabalhavam nas limpezas. Em conjunto, estes homens e mulheres contribuíram muito para a reconstrução da cidade e manutenção das suas novas estruturas. Em simultâneo, contribuíram para as mudanças na defesa dos direitos e da segurança dos trabalhadores.

Vista aérea do sul da University Avenue começando ao norte de Richmond Street, circa 1954. Coleção MHSO/CITY-1128-2-268

Durante os anos 60 e 70, os imigrantes portugueses, muitos sem instrução superior, tornaram-se maioritariamente trabalhadores no setor da construção e dos serviços de manutenção. As mulheres portuguesas centraram-se na indústria de vestuário e nos serviços de limpeza, recebendo muitas delas formação informal no local de trabalho. Havia um elevado índice de acidentes industriais entre os portugueses no setor da construção e de portuguesas na indústria do vestuário, que manifestavam problemas de saúde devido ao manuseamento de químicos no trabalho.

Outro problema era o facto de o setor de construção por vezes recrutar trabalhadores clandestinos e sem documentos. Sem a situação regularizada, muitos trabalhadores ilegais não recebiam salário, trabalhavam em condições perigosas, eram alvo de discriminação e não tinham direito a qualquer indemnização por lesões no local de trabalho. Muitos eram de ascendência portuguesa. Em abril de 2006, quando foram deportados do Canadá vários trabalhadores ilegais de ascendência portuguesa e hispânica, a comunidade reagiu com petições e manifestações em sua defesa. Os apelos “Apoiem, não deportem” não passaram despercebidos, e a Câmara Municipal e a Câmara dos Comuns aprovaram moções a condenar as deportações. Por detrás desta história, reside não só o problema complexo de trabalhadores sem documentos, como também uma faixa mais abrangente de imigrantes em Toronto sem a devida documentação e a mão de obra clandestina que deriva desse facto.

Para os trabalhadores da construção civil, em particular, a sindicalização foi uma forma crucial de se protegerem das más condições laborais e dos salários baixos. Alguns portugueses desempenharam um papel importante no Labourers International Union of North America (Sindicato Internacional de Trabalhadores da América do Norte), o Local 183. Os sindicatos iriam ajudar a garantir melhores salários, condições de segurança e estabilidade laboral, que, por sua vez, melhoraram a capacidade financeira da comunidade portuguesa. Os portugueses tornaram-se um dos maiores grupos de imigrantes no ramo da construção em Toronto nos anos 60, 70 e 80. Trabalharam lado a lado com outros imigrantes de várias origens na construção de estruturas como a CN Tower, o Metro Toronto Convention Centre e a linha de metro Bloor-Danforth. A obra mais notável, e onde os portugueses passaram décadas a trabalhar, talvez tenha sido o aeroporto internacional Toronto Pearson, por onde passou a maioria deles, na chegada ao país.

As mulheres portuguesas enfrentaram maiores desafios na tentativa de melhorar as suas condições laborais. Devido à tradicional divisão do trabalho em Portugal com base no género, a participação das portuguesas no mercado de trabalho ficava abaixo da média. Ainda assim, em Toronto, algumas mulheres tinham mais do que um trabalho e faziam sacrifícios incríveis em relação à família e à vida doméstica para ganhar um rendimento extra. Em parte, o problema das portuguesas no ramo de limpeza e de vestuário residia no facto de a Secção 63 da Lei de Relações Laborais de Ontário (Secção de Direitos Sucessórios) não se aplicar a trabalhadores subcontratados ou das limpezas. Por conseguinte, quando as empresas sindicalizadas eram vendidas a novos proprietários, cessavam os acordos coletivos e os direitos laborais. Isto significava que um contrato de prestação de serviços de limpeza podia terminar em qualquer altura e um trabalhador podia ser substituído por outro disposto a ganhar um salário inferior. Estes problemas forçaram as mulheres portuguesas destas indústrias a organizar-se e a reivindicar mudanças, sendo que algumas delas ainda perduram atualmente. Um caso de destaque no setor têxtil foi a McGregor Hosiery Mills, onde as mulheres eram fortes a organizar-se. No setor das limpezas, as empresas com presença sindical incluíam o complexo de Queen’s Park, o Toronto Dominion Centre e o First Canadian Place.

Piquete no First Canadian Place, década de 1980. Coleção MHSO

Havia uma relação evidente entre exploração laboral e conhecimentos linguísticos limitados, pois, sem conhecerem as leis e as instituições locais, muitos trabalhadores imigrantes não se conseguiam defender das más condições de trabalho e dos direitos laborais limitados. No entanto, nos anos 70 e 80, mulheres portuguesas que falavam muito pouco inglês estiveram envolvidas em greves contra empresas de limpeza. Em 1974, recusaram trabalhar no Toronto Dominion Centre contra a reutilização de sacos de lixo sujos. Em 1986, técnicas de limpeza do First Canadian Place saíram do trabalho para protestar contra medidas injustas. Estas ações não passaram despercebidas na cidade, e os cidadãos manifestaram apoio pelas dificuldades destas trabalhadoras. Embora alguns protestos não tenham sido bem-sucedidos e muitas mulheres tenham acabado por voltar ao trabalho sem qualquer alteração, outros tiveram resultado e foram conseguidos acordos que incluíam aumentos salariais, renovação de contratos e melhorias gerais para as trabalhadoras.

Os trabalhadores portugueses desempenharam um papel importante no setor de construção, de limpeza e de vestuário de Toronto. Foram estes imigrantes e os seus descendentes que construíram e mantiveram as novas infraestruturas e os bairros residenciais do que viria a ser a capital financeira do Canadá e a cidade mais cosmopolita e culturalmente vibrante do país.

Fontes

Grace Anderson, Networks of Contact ‘The Portuguese in and Toronto’, (Wilfred Laurier Press, 1974).
Wenona Giles, Portuguese Women in Toronto: Gender, Immigration and Nationalism (University of Toronto Press, 2002).
Jonathan Clifton, “Deserving Citizenship?: Canadian Immigration Policy and Low Skilled Workers in Toronto”, retrieved from
https://circle.ubc.ca/bitstream/handle/2429/2432/ubc_2008_fall_clifton_jonathan.pdf
Susan Maranda, ‘Portuguese Women in the Cleaning Industry 1970-1990’, in Victor Da Rosa and Carlos Teixeira, The Portuguese in Canada: Diasporic Challenges and Adjustment, (University of Toronto Press, 2009).
Fernando Nunes, ‘Portuguese Canadian Women, ‘Problems and Prospects’, Polyphony : Women and Ethnicity, Vol. 8, No. 1-2, (Multicultural History Society of Ontario, 1986), pg. 61-66.
Toronto Planning Board. Committee on Buildings and Development. Kensington Health Study 1976, MHSO Portuguese Collection

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